Deixa as palavras voarem | Morte

terça-feira, setembro 16, 2014

Recentemente conheci o blogue Uma Pérola no Deserto da Adelisa e aquilo que me atraiu à partida foi esta rubrica "Deixa as palavras voarem" onde cada semana ela nos desafia a escrever sobre um determinado tema proposto por ela. O desta semana é, como deu para perceber pelo título, é sobre "Morte". 

Morte, algo inevitável. Morte, o fim.
Ao contrário de muitos de vocês - assim o penso - eu convivi com a "morte" desde muito pequena. Só para terem uma ideia, até aos meus 10 anos eu já tinha perdido os meus avós... quer paternos, quer maternos. A morte não entrou na minha vida pela primeira vez com o Mufasa a morrer e o Simba a chorar, não. Eu vi a morte ocorrer na minha frente várias vezes e observei com toda a atenção como ela arrasa as pessoas, o sofrimento que traz a quem fica sem o seu ente querido. É sabido que tudo morre... até os nossos fios de cabelo vão morrendo, a nossa pele; mas essas mortes são substituídas por novos fios, nova pele. Porém, e a morte de uma pessoa? De um animal de estimação? Essas insubstituíveis deixam marcas. E para sempre.

Como criança não entendia bem o que era a morte ou porque os meus avós outrora sentados nas suas cadeiras ou a minha querida avó outrora preocupada em ter sempre um pacotinho de batatas fritas Ruffles guardado para mim, tinham deixado de existir. E o porquê e como isso era suposto ser normal. E porque é que os meus pais num dia sorridentes ficavam tristes e começavam a vestir preto. Consoante cresci, entendi. A morte é irreversível. Ninguém volta da morte para que tu possas dizer as tuas últimas palavras a essa pessoa. A morte não tem hora; num segundo está tudo bem, no outro fica a saudade, a falta. E é o que fica, a saudade, a frustração de não ter tido mais tempo, o amargo de, quiçá, ter deixado a pessoa se ir quando ainda tinhamos muito a dizer... e às vezes, o mais importante, fazer sentir que amamos essa pessoa.

Entendi o que significa a morte para quem fica por cá e, não só entendi, como a vivi. Quando tinha dezassete anos, a minha mãe faleceu devido a um cancro. Ela respirou pela última vez e pronto, acabou. Acabou a sua voz, acabou o seu cheiro, acabou o riso, o choro, as reclamações, a forma como dizia o meu nome, acabou até a dor que as suas palmadas traziam. Deixou de existir. Ficaram as roupas, os perfumes, as lembranças, os seus jogos de cama guardados e até o shampoo que tinha usado no dia anterior. Que... fugacidade a nossa vida. E por que razão é que tem que ser assim? Porque "tem". Porque tudo o que nasce, morre. É biológico morrer... Mas não devia.

A morte marcou a minha vida de tal forma que eu tenho dificuldades de sonhar e pensar no futuro. Amanhã posso nem estar mais por cá. E eu tenho medo da morte. Medo de morrer, de deixar para trás coisas inacabadas, pessoas a quem a minha presença faria falta, sonhos deitados por terra.

E nem adianta dizer estar preparado para o inevitável. Nunca se está. Fica-se preparado para algo que pode ter um recomeço depois, uma nova tentativa, um novo caminho... Mas a morte é o fim. Como se pode estar preparado para isso?

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4 comentários

  1. A morte é de facto algo cruel para quem tem que passar por isso :s Obrigada pela tua participação :)

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    1. De nada, foi um prazer... até serviu para desabafar.

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  2. Catarina amei este texto!! Está tão bem escrito, tão sentido, sei lá simplemente adorei!! Um grande beijinho :)

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    1. Oh, Ana Rita! Que bom! Adorei saber que adoraste e tudo mais.
      Um beijinho enorme :D

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