Diário de viagem - A viagem

segunda-feira, março 09, 2015

6 de Fevereiro de 2015

Na madrugada acabava de arrumar as minhas coisas e tentava, a todo o custo, não adormecer com a vontade de deixar o sono para a viagem longa de avião. Quando a Esdras - uma amiga da família - chegou para me levar ao aeroporto do Porto, carreguei a minha mala comigo e fui de nervoso miudinho e com grandes expectativas para o aeroporto. Era como se fosse a primeira vez. Eu já andei de avião e fiz exactamente a mesma viagem mas quando era bem pequena e não me lembrava, então... sentia-me estranha e bem assustada. 
Como já tinha feito o check-in online, não precisei ficar numa fila enorme de pessoas, despachei a mala - que tinha exactos 25kg - e fui tomar um pequeno-almoço que me custou a ser engolido. Confesso, eu tinha medo de andar de avião e por mais que me dissessem "É o transporte mais seguro de todos" eu sentia medo. Mas precisava ir contra isso. 
O portão de embarque era o 13. Por superstição, quase ri de mim mesma, tinha logo que ser a porta com o número de azar? Mas entretanto comecei a pensar no calor, nas praias, nos abraços da família que me esperava e que ainda ia conhecer sem ser por uma foto no facebook e entrei calma no avião, procurando o meu lugar, 22H. Escolhi o lugar do corredor para não ter que incomodar ninguém para sair para o WC; que eu sabia que iria dar uso dado o nervoso. 
Do lado da janela, então, estava um homem sentado e com cara de poucos amigos mas com um ar de "já fiz isto milhões de vezes" pela forma como agia: colocava o cinto, verificava se estava tudo certo, abria o saco onde tem uma almofada e uma manta... E eu limitei-me a observar e a repetir os passos dele. Bem tosca. Até que peguei no comando interactivo para ligar o monitor na minha frente e este, sendo puxado por um fio - daqueles que recolhem automaticamente depois de um certo puxão -  ajustei-o à minha distância. Verifiquei que o monitor ainda estava bloqueado e então tentei colocar o fio de volta e o comando encaixado no lugar. Comecei a empurrar o fio para dentro... mas nada, daí puxei mais pra mim e mais e mais... e quando dei por mim, tinha o comando na mão e um fio enorme e sem conseguir fazer aquilo voltar ao lugar. Já estava a fazer asneiras, pareço uma criança. O homem, sem mostrar muita paciência, simplesmente disse:
- Tens que puxar com força que ele volta. Assim.
E pegou no comando, deu um puxão qualquer e ele retrocedeu todo como se fosse aquelas fitas métricas que ao carregar num botão voltam a enrolar para dentro.
- Obrigada. Primeira vez a andar de avião.
E ele continuou inexpressivo e reinou o silêncio. Quando fosse a hora, eu ia puxar o comando e tentar encaixá-lo.
Voltei a pensar em coisas felizes para me acalmar, enquanto os comandantes se apresentavam e forneciam informações sobre o voo - Voo 61 da TAP membro da Star Alliance, com destino ao Rio de Janeiro, com duração prevista de 10h40min - e passavam um vídeo de segurança. A decolagem foi autorizada. Encostei-me bem na cadeira e olhava pela janela com expectativas quando o avião começou a andar. E depois a acelerar na pista... e então a subir. Pela janela, a cidade do Porto ia ficando menor e num plano inclinado. A minha barriga deu uma volta, o meu coração acelerou e os meus ouvidos pareciam cheios de água. Se não morresse numa queda, ia morrer ali, hahaha. Senti-me mal até que o avião estabilizou... assim como os meus batimentos cardíacos. Tinha as mãos frias e suadas e o meu primeiro pensamento foi "Se eu quiser sair agora deste avião, não tem como". Chega, ia correr tudo bem.
Consegui utilizar o comando com sucesso (coros de aleluia!) e espiei a programação de entretenimento para a viagem. Até ali, tudo bem! Tinha até Game Of Thrones para assistir.
Comecei a ficar mentalmente cansada. Não tinha dormido mas também não conseguia pregar olho. O som das turbinas do avião invadiam-me os ouvidos e risos de crianças e as conversas de adultos também não ajudavam.
- O que é pior? Decolar ou aterrar? - Perguntei ao estranho ao meu lado do qual não soube nunca o nome.
- Eu acho que aterrar é pior! Mas para certas pessoas é um alívio, depois de uma viagem longa assim.
E não sabia mais o que conversar com o estranho mas achava que, para fazer o tempo passar, tinha que tentar manter uma conversa. Acabei por ligar o monitor e ir jogar um jogo de damas e outro de xadrez e mantive o homem como meu parceiro para me ajudar nas jogadas. Acabamos por conversar sobre os nossos destinos de viagem, o que íamos visitar, de onde éramos mas... para quase 11h de viagem não iria haver assunto com quem nunca vimos na vida. Por fim - e felizmente para ele - o sono tomou-o e adormeceu. Eu fiquei cansada, sem dormir, vi um filme, vi Game Of Thrones e ainda faltavam 4h de viagem. É uma experiência horrível tanto tempo dentro de um avião, sem dormir e a sentir o corpo inchar.
Quando finalmente o avião aterrou - e a sensação de aterrar foi ora de alívio ora de entusiasmo - tinha a visão pela janela do aeroporto António Carlos Jobim mais conhecido como Galeão.
"Senhores passageiros, acabamos de aterrar no aeroporto António Carlos Jobim, no Rio de Janeiro. A temperatura é de 33º graus Celcius. As malas estarão na esteira 3." O terror. Eu sei lá onde seria a esteira 3? Com a experiência descobri que os aeroportos estão muito bem sinalizados e encontrar a esteira foi a coisa mais fácil de sempre... isto, depois de passar pela Polícia Federal, é claro. E, também, depois do choque térmico ao sair do avião. Em Braga tinham estado 2 graus, o avião manteve-se fresco e enfiei a cara e o corpo em 33 graus, no espaço de 1 segundo.
Assim que passei pelo portão de desembarque internacional, fui invadida por um monte de taxistas que perguntavam se eu queria um táxi. Não, não queria. Estava era à procura das minhas primas que iriam me buscar mas era tanta gente que eu não identificava ninguém. Mandei mensagem a avisar que já tinha saído e, afinal, tinha passado por elas e nem elas me tinham visto.
Fui bem recebida como já sabia que seria. Eram 18h no Rio de Janeiro. Eu finalmente estava lá.

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4 comentários

  1. Um início marcado pelo turbilhão de emoções... (:

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  2. Aiiii desejosa de ler todos estes posts eheh :D
    Quando andei pela primeira vez de avião gostei mas foram só 2h. Se andasse as 10h acho que a uma certa altura iria ficar farta xD

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  3. Aiii, e eu a pensar que ia sair daqui uma cena como aquela que escreveste há uns anos... ahaha, estou a brincar :) Adorei todos os posts! ❤

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